Espaço sem lei
Antes de mais nada, vamos esclarecer: ver os termos “mineração” e “blockchain” na mesma frase pode levar a pensar que estamos falando da mineração de criptomoedas nos asteróides, mas não é isso (pelo menos por enquanto). A atividade a que nos referimos aqui é a extração de minerais (como ouro e prata) dos asteróides comercialmente viáveis, e o transporte desses recursos de volta para a terra. A blockchain entra nessa história apenas como ferramenta mesmo, sem estar atrelada a transações financeiras.
Isso porque para a ConsenSys, os contratos inteligentes são a solução mais adequada para atividades de comércio privado no espaço, uma vez que permite que os acordos se concretizem de forma transparente ejusta para todas as partes envolvidas. Seria como se a solução fosse um instrumento para coordenar interesses entre países e indivíduos em uma terra sem lei.
As ambições dos envolvidos no projeto são grandes. Chris Lewicki, ex-funcionário da NASA e co-fundador da Planetary Resources, acredita que a ideia expandirá a influência da esfera econômica humana no Sistema Solar (seja lá o que isso quer dizer). Enquanto isso, Joe Lubin declarou:
“Trazer os recursos do espaço profundo para o ecossistema da ConsenSys reflete nossa crença no potencial da Ethereum para ajudar a humanidade a criar novos sistemas de regras societárias, por meio da confiança automatizada e execução garantida. Isso reflete nossa crença na democratização e descentralização dos esforços espaciais, a fim de unir nossa espécie e libertar o potencial humano inexplorado”.
E apesar do uso das criptomoedas nessa atividade toda não ter sido mencionado ainda pelas empresas, se a gente pensar que muito do potencial desse tipo de ativo não tem sido explorado por conta das barreiras impostas pelas autoridades das nações, o espaço sideral realmente é o lugar mais adequado para transacionar as criptomoedas, afinal, elas estariam bem longe das soberanias territoriais.
Próxima parada: Marte
Não dá pra ser inocente e pensar que as ambições das empresas acabam por aí e tudo certo. Nós sabemos o que a Planetary Resources fez no verão passado: o negócio da startup inicialmente não tinha nada a ver com a mineração de asteróides. Criada com a finalidade de desenvolver telescópios espaciais, seu foco mudou quando, junto com a Deep Space Industries (até então dedicada ao reabastecimento de satélites de comunicação), a indústria espacial viu na mineração de asteróides a possibilidade de antecipar e facilitar a colonização de Marte. Acontece que por mais que o planeta tenha determinados recursos para a habitação humana em sua superfície, eles são de difícil acesso. Desenvolver tecnologias para que o homo sapiens possa encher seus pulmões de ar por lá, por exemplo, levaria muuuitos anos. Eis que, ao invés disso, ambas empresas tiveram a ideia de obter esses recursos explorando os incontáveis asteróides que estão de bobeira por aí, cheios de metais ferrosos, preciosos e, o mais importante, elementos essenciais para a vida, como oxigênio e carbono. A ideia não é nada exorbitante, pois a extração de recursos é bem menos complicada do que parece, considerando que a órbita dessas rochas espaciais são parecidas com a da Terra em torno do Sol e elas possuem pouca massa e gravidade.
Agora, pensa aqui com a gente: será que a ConsenSys adquiriu a Planetary Resources sem fazer ideia disso tudo? Claro que sabe. E também não deve estar alheia ao potencial que isso representa: se a empresa de blockchain está financiando a atividade que será essencial para a colonização de Marte, suas ambições econômicas serão as primeiras a chegar lá.
Um universo de possibilidades
Aparentemente, a ConsenSys acredita que vai criar um paraíso privado lá fora e depois exportar ele para a Terra; o mundo todo verá o quão eficaz a coisa toda é e adotar os mesmos padrões; todos viverão felizes para sempre; fim. E talvez dê certo. Mas talvez ela esteja sonhando muito alto (perdão pelo trocadilho), pois não podemos esquecer que as condições espaciais diferem das terrenas: o teste de novas regras societárias em um ambiente primitivo, regido por robôs, não é exatamente um parâmetro para sociedades que já existem há séculos e funcionam de modos tão diversos e orgânicos.
Além disso, a ideia toda traz à tona algumas possibilidades:
1) a exploração dos asteróides com fins comerciais infringe o Tratado do Espaço Exterior, assinado por cerca de 100 países em 1967, que declara que o espaço é de toda a humanidade e ninguém pode tomar posse dele, pois é um bem comum. Segundo o acordo, a extração deve ser dedicada exclusivamente ao suprimento de missões fora do planeta Terra. Eis que o governo americano fechou os olhos para isso e deu um OK para a atividade em 2015 (com a autoridade que concedeu a si mesmo?), e essa decisão, somada ao passo da ConsenSys, pode desencadear uma corrida acirrada entre as nações – é claro, somente aquelas desenvolvidas. Esse artigo aqui fala sobre como isso consequentemente pode levar a uma disparidade ainda maior entre os países e, se a gente somar isso àquela questão de colonização de Marte, não é um absurdo pensar que daqui algumas décadas é bem possível que a elite deixe que a Terra se exploda e assista o espetáculo do camarote do planeta vermelho.
2) muito se fala sobre como o Bitcoin tem destruído os recursos naturaisdo nosso planeta. Ainda que a mineração de asteróides seja de ooooutro tipo, não se surpreenda caso a mineração de criptomoedas passe a explorar os recursos lá de fora também – ou você acha que o co-fundador da segunda principal criptomoeda do mundo nunca pensou nisso?
3) se tudo der certo, o valor da blockchain da Ethereum será inestimável. E, consequentemente, o preço do Ether (ETH) vai pegar carona nesse foguete e ir à lua antes mesmo do Bitcoin.
4) os extraterrestres podem ficar bolados com os novos vizinhos e acabar com a coisa toda.
Todo esse assunto pode parecer distopia, ficção científica, teoria da conspiração ou pura piração. Mas se considerarmos que há uma década a gente nem imaginava que existiria a tal da blockchain e o que seriam as criptomoedas, nada é impossível.
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